sexta-feira, maio 08, 2009

Quadrinhos Argentinos


Já faz bem um ano que devo continuação do post sobre quadrinhos pelo mundo onde falei, em linhas gerais, que as vertentes de desenhos e quadrinhos podem ser divididas pelas delimitações geográficas.

É interessante pois cada povo transpassa aos seus quadrinhos a sua cultura e maneira de pensar. E como quadrinhos são imagens isso fica, as vezes, oculto e subentendido.

Por exemplo, a linha norte-americana enfatiza o heroísmo, a dominação do 'bem' que vence pela força; valores dicotômicos e de nítida separação entre o bem e o mal. Quadrinhos japoneses tem um quê de Disney lá no fundo, graças ao pai criador dos quadrinhos japoneses modernos: o Osamu Tesuka, mas como também ocorre na cultura daquele país, o que é similar é apenas a superfície, por trás, nos enredos, os quadrinhos japoneses desconstróem e exacerbam temas que o conservadorismo do ocidente não teria 'culhões' para abordar.*

Ainda dentro daquela linha, destaquei uma vertente de quadrinhos que serve de exemplo para nosotros brasileiros, um quadrinho com personalidade, o quadrinho Argentino. Não que o nosso não tenha, mas como a própria definição do brasileiro, o nosso quadrinho é de uma mistura e diversidade incríveis (sendo, portanto, difícil conceituarmos 'O quadrinho Nacional'). E "o que é quadrinho argentino?" É um diamante do quadrinho ocidental onde marcadamente se percebem características únicas da arte: nem Europeu, nem Norte-Americano. O desenho argentino tem sua cara, ao se vê-lo logo se percebe: é argentino".

E quais os nomes dessa HQ portenha? O desenhista argentino de maior projeção é, sem dúvida, o Quino, desenhista da menina Mafalda. Mas como todo grande expoente particular, ele não serve para o todo, até porque se insere na linha universal do cartum (depois falarei mais dele).

O quadrinho argentino tem um nome característico e definidor: Alberto Breccia.

Mesmo para quem não leu nenhum trabalho de Breccia, é impossível deixar seu traço passar desapercebido. Breccia dominou a técnica de luz e contra-luz como nenhum outro. Seus trabalhos deixaram marca para diversos outros desenhistas argentinos, inclusive seus filhos (Enrique, Patrícia e Cristina) que também seguiram a carreira de desenhistas. No Brasil recentemente o nome de Alberto e seu filho foram lembrados por questão do lançamento do album Che da Conrad. Breccia usava de uma técnica impar que parece a inversão de cores do Photoshop: usualmente seus desenhos usavam branco onde devia ser escuro e preto onde geralmente era claro, ambientando sombriamente as histórias.

Tornou-se importante na argentina, o gênero de quadrinhos de aventura. Algumas inspiradas nos filmes de faroeste norte americano. Um chileno que veio a trabalhar na argentina é também importante nessa linha e ajudou a consolidar os quadrinhos argentinos é Arturo Castilho. Um de seus principais personagens era o Cawboy 'Ringo'. Trabalhou também com Oesterheld, argumentista de peso dos quadrinhos portenhos de aventura. Oesterheld está para argentina o que Adolfo Aizen esteve para o Brasil, pela importante diferença que a editora de Oesterheld, da revista "Hora Cero", cujo o principal personagem é o "Eternauta", publicava histórias argentinas de sua própria autoria.** O quadrinho argentino tem boa relação com os Fummetti italianos, Miguel Angelo Repetto, trabalhou para a editora Bonelli com o personagem cowboy italiano TEX, muito famoso aqui no Brasil. Além disso, Hugo Pratt passou alguns anos na Argentina e lançou junto com Manara o álbum "O Gaúcho" editado aqui no Brasil.

Arriscando, há até semelhanças com o desenho desenvolvido por Pratt com os desenhos da escola argentina, mais do que com o que se fazia na Europa inclusive. Outro desenhista importante é Francisco Solano Lopez, sim, o mesmo nome do imperador paraguaio que levou aquele país à guerra com o nosso e a própria argentina e uruguai. Solano Lopez é um dos principais desenhistas do Eternauta de Oesterheld.**

A FIQ-BH de 2007 deixou marca em todos nós, quase ninguém prestou atenção, mas esteve aqui em BH o criador e desenhista Domingo Mandrafina, eu e o Leandro conversamos com ele, nos pareceu muito simpático e o tema de nossa curta conversa em portunhol foi a pouca ligação entre os quadrinhos latino-americano aqui no mercado brasileiro. De fato, fui procurar algo dele aqui no Brasil e não se acha nada. Mandrafina é um gigante, mas tinha que se ver como estava vazia a sua seção, e os que estavam lá não estavam prestando muito atenção no que ele e o espanhol Carlos Sampaio, estavam a dizer. Mandrafina trabalhou ao lado de Carlos Trillo, em Iguana, Irmãos Spaguetti, A grande Farsa. Trillo é também o roteirista de Cicca Dum Dum, lançado pela Ed Zarabatana ano passado.

Não ocorreu o mesmo com Eduardo Risso. Risso também faz juz a escola argentina. Se bem olharmos o seu traço, os antecessores de seu país estão lá. A palestra de Risso estava bem mais cheia, pelo sucesso que tem o título 100 Balas aqui no Brasil e por sermos muitos voltados para o quadrinho norte-americano. Como Risso se projetou lá fora nos EUA, ele teve mais foco durante o evento aqui no Brasil. Uma pena, pois um evento desse não serve apenas para nos focarmos no que já é conhecido, mas principalmente para conhecermos o que ainda não nos era conhecido.

Finalmente, o blog dos quadrinhos do Paulo Ramos fez uma ótima cobertura sobre quadrinhos argentinos. Ramos também questiona, encitado por Guazzelli***, "por que, não conhecemos tanto os quadrinhos argentinos aqui no Brasil?".

Tentei mostrar aqui, que os quadrinhos argentinos possuem excelentes trabalhos, no que se pode chamar de Escola Argentina. Há ainda a linha do humor com grandes nomes como Quino, Fontanarrosa, Maitena, Liniers, dentre outros também importantes. Ao contrário do que podemos esperar no futebol, não há motivos para rivalidades no campo dos quadrinhos, só temos a ganhar em conhecer a produção cultural da argentina e de nossos outros amigos latino-americanos. Torço, então, para que as historietas argentinas cheguem por aqui em nosso campo e vençam de goleada!


* Fazendo justiça aos Mangás, nem todos tem ou tinham um aspecto derivado do Tesuka.

** Eternauta é um personagem muito interessante, trata-se de um ser que nunca morria e passava pelos diversos eventos históricos importantes da humanidade.

*** Guazelli também esteve em em BH em 2007, e bem lembrou essa ponderação.

*4 Entrevista com Repetto

*5 Animação em Homenagem ao estilo de Alberto Breccia.

*6 Breccia era de nacionalidade Uruguaia, mas se mudou aos 3 anos para Buenos Aires.

4 comentários:

Lia_Lioca disse...

Legal amor, errei no lugar de mandar comentario, mais sei que vai me entender até porque ficou legal lá também porque vc fala dos 25 maiores escritores. Legal também.
1000 beijos

I'm a Rock disse...

Sim, mas essas listas de melhores são sempre um pouco controversas, eu por exemplo consideraria alguns outros.

Beijos

Lilly disse...

Legal, tenho certeza que o universo das HQs se aprofundando é fascinante... Mas não sou mto ligada não. Uma das poucas histórias baseadas em HQs que curto, é X-Men... Por falar nisso, viu o filme do Wolverine? Que achou? Desculpa pelo sumiço e, parabéns pelo blog. Abços

Anônimo disse...

Hello,nice post thanks for sharing?. I just joined and I am going to catch up by reading for a while. I hope I can join in soon.