sexta-feira, setembro 19, 2008

Considerações sobre as Palestras Guru

Pessoal, tenho tópicos na garganta para abordar aqui, porém dei um tempo com o blog por conta dos outros afazeres e porque, em parte, não estava conseguindo digitar nada que me agradasse muito nos últimos tempos. Acho que a insatisfação veio com uma necessidade sempre grande de aliar alguma imagem no post, e de preferência alguma imagem feita por mim mesmo, o que dá muito trabalho e insatisfação por não ter nenhuma pronta.

Estou também arquitetando um blog de economia, o economia marginal, e isso me tomou algum tempo.

A baixa no ânimo estava tanta que não postei a senadora colombiana Ingrid Betancourt e o teatro de bonecos do giramundo que aconteceu na quinta passada, dia 11/09. Eventos ocorridos todos pelo ciclo de palestas e comemorações dos Sentimentos do Mundo, assim como a palestra com o David Lynch. Tampouco me pronunciei sobre a data marcante do 911.

Sobre o David Lynch, não valeu a pena. "Tudo vale se alma..." Porém, estou com alma pequena e pessoas muito grandes não estão cabendo.

Como previsto, o auditório para escutar o famoso cineasta lotou, ainda colocaram telões no primeiro e segundo piso para que alunos e funcionários pudessem acompanhar pelo lado de fora. Palestras com gurus não costumam ser muito boas, alguns não conseguem manter a proximidade. Os próprios ouvintes não conseguem se aproximar da pessoa humana que está por baixo de todas as camadas de iluminação, e a adoração é demais para que o entrevistado desça. E foi assim que se deu o ciclo de perguntas com o David Lynch.

Muitos faziam perguntas que se assemelhavam a perguntas de iluminação: "qual o segredo da vida", "a chave para a criatividade"... Eu mesmo fiz uma dessas perguntas que ficam no vácuo. A apresentação começou com a Maria Esther Maciel traçando um paralelo sobre o fantástico nos cinemas de D. Lynch e a literatura surrealista, porém, para ela, a obra do diretor ultrapassa o surrealismo, pois supera simbolismo e está contida em si. Perguntado sobre isso Lynch foi evasivo. Aliás, nunca vi tanta evasão, em parte pela tradução estar muito fraca.

O professor Heitor Cappuzzo, fez uma bonita apresentação ressaltando a beleza plástica nos filmes de Lynch, o diretor aproveitou o gancho para falar de como é possível aumentar a aproximação e compreensão das pessoas para aumentar o diálogo e o entendimento. De coisas boas da palestra tivemos algumas poucas pinceladas do processo criativo Lynchiano, ele ressaltou bastante as várias formas de estimular a criatividade, dentre elas a meditação que propicia aos praticantes ir mais fundo em suas idéias. Aliás, Lynch veio falar do seu livro recém lançado no Brasil, "Em águas profundas", que versa principalmente sobre meditação transcedental.

Lynch ressaltou negativamente o caráter bélico dos EUA, o qual acredita ser um país pior para se viver do que já foi há mais de 10 anos atrás, mencionou também detalhes interessantes da série Twin Peaks e sua forma de direção, o relacionamento com o elenco e inclusive a escolha de quem participar em seus projetos, as belas atrizes, a projeção de Isabella Rosselline e outras curiosidades.

Bom, alguns momentos de maior descontração, elogios ao corte de cabelo, perguntas sobre se é preciso fumar um para entender os filmes de Lynch e brincadeiras à parte. Houve um momento de má tradução onde 'iluminação' cinematográfica foi tida como 'iluminação' espiritual. Uma que se aplicou a minha pergunta:

Afirmei, em minha pergunta, que Lynch havia produzido o documentário sobre a vida de R. Crumb (e de fato produziu) , porém "produziu" foi traduzido como "made" (fez), obviamente não tem o mesmo sentido. A resposta foi "não", mas com minha explicação posterior Lynch lembrou sua pequena participação no filme, mas o estrago de entendimento já estava feito.

Minha pergunta iria pelo lado da associação entre processo criativo de quadrinhos do Crumb e o cinema em Lynch. É sabido pelo documentário que Crumb, também crítico ao regime capitalista extremado e guerreador dos EUA se mudou para a frança. Além disso, Crumb também tem uma expressão de medo em seus desenhos, uma catarse, uma produção sem uma idéia clara de final, mas por uma escolha de imagens que mais lhe agradam visualmente, ou que ele está com vontade de desenhar. Minha pergunta ia pela semelhança dessas duas visões. Mas após o mal-entendido os alunos-cabeça de Belas artes, que devem achar quadrinhos e underground arte menor, começaram a me zoar.

A mal amarrada pergunta saiu sobre desenho e processo criativo para liberar ideias, ou se Lynch as anota quando as tem. Mal entendendo, o palestrante disse que todos os processos são válidos, que a pintura (a qual ele pratica) permite um fluxo de consciência muito estimulante à criatividade, e que no fundo as idéias podem partir de muitos lugares: vendo um filme, peça de teatro, lendo, etc... Ele não falou, mas ao que parece ele não anota, confia na memória para obter as idéias que lhe surgem, e terminou de maneira simpatica dizendo que gosta do trabalho do Crumb.

Enfim, as palestras guru não são culpa da platéia, nem do guru, Lynch, no emaranhado da má-tradução permaneceu simpático. Foram muitos "I don't know" como resposta, mas a culpa não é dele no que tange as ansiosas respostas que buscam 'o segredo'. Também não é nossa no que tange a não conseguir quebrar o gelo do estranhamento que a adoração provoca. Vendo tudo aquilo na pespectiva de quem está sentando lá na frente, deve ser também um tanto assustador.

Pois bem, leitores, recomendo entrevistar ou ir a palestras de David Lynchs enquanto eles ainda não são como tal. Palestras com escritores, diretores e desenhistas em ascenção são mais produtivas (não há o distâncimento tipo guru). Evite tradutores, fale errado, mas na mesma língua. É melhor do que a má interpretação onde nem se pode corrigir direito. Dê preferência a palestrantes da língua nativa, pergunte coisas que quer saber, não o que pode agradar ou respostas miraculosas para os problemas do cinema, da arte, da vida, melhor as coisas de simples curiosidade. Essa me lembrou uma palestra do Joseph Stiglitz em BH, também, outra do tipo palestra-guru.

Um comentário:

Lilly disse...

Essa postura Guru, ou, ah fulano de tal é o especialista, só atrapalham as coisas. A Fama mtas vezes atrapalha as coisas, ainda mais num País onde se exalta qualquer um que a tenha, sem perguntar se a mereceu realmente, ao menos em regra é assim. Mas excelente texto e, quem me dera se sem inspiração, digamos assim, para escrever, eu ainda escrevesse desse tanto... heheh